domingo, 3 de junho de 2012

Relevância da introdução de espécies não nativas e invasões biológicas para as ciências ambientais e necessidades extremas da mudança do panorama atual na América do Sul


Por Jean Ricardo Simões Vitule1,2,3
Laboratório de Ecologia e Conservação, Departamento de Engenharia Ambiental, Setor de Tecnologia, Universidade Federal do Paraná, 81531-970, Curitiba, Paraná, Brasil. E-mail: biovitule@gmail.com
Grupo de Pesquisas em Ictiofauna, Museu de História Natural Capão da Imbuia, Prefeitura de Curitiba, Rua Prof. Benedito Conceição, 407, 82810-080, Curitiba, Paraná, Brasil. E-mail: vabilhoa@uol.com.br
3  P.P.G. Ecologia e Conservação, Setor de Ciências Biológicas, Universidade Federal do Paraná.

Do ponto de vista teórico e aplicado a ecologia de invasões biológicas é um ramo muito relevante e atraente dentro das ciências ambientais modernas e tem gerado idéias, métodos, hipóteses e discussões inovadoras (e.g. Lockwood et al., 2007; Simberloff & Rejmánek, 2011). Já em 1958, Charles S. Elton propôs que os ecossistemas com maior diversidade de espécies seriam menos sujeitos á invasões, uma vez que, por exemplo, nesses há menos nichos disponíveis. Um artigo recente de Eisenhauer et al. (2012) mostra, por meio de um elegante desenho experimental, que a diversidade de espécies poderia estabilizar ou tamponar as comunidades biológicas durante as invasões e mesmo outros tipos de distúrbios. Neste contexto, parece que a biodiversidade dos ecossistemas fornece resistência maior contra novos invasores estrangeiros e outros eventos; infelizmente a grande maioria dos estudos com invasões se concentra em países ricos e de baixa diversidade biológica natural (Vázquez & Aragon, 2002; Lövei et al., 2012; Nuñez et al., 2012 in press; Speziale et al., 2012; Vitule et al., 2012 in press). Ao mesmo tempo, a riqueza de espécies não nativas pode causar problemas sérios em um sistema ecológico (Ricciardi, 2005) e amplificar a magnitude de impactos indesejáveis (Simberloff, 2006). Neste sentido, a hipótese de Elton de diversidade estabilizadora não considerou a força de interações ecológicas positivas (+/+) e facilitações (0/+) que podem gerar aumentos na riqueza da comunidade invadida. Assim, recentemente, foi proposta uma hipótese oponente batizada de “fusão invasora” - invasional meltdown: “processo no qual um grupo de espécies não nativas facilita a invasão uma das outras de múltiplas formas, aumentando assim as possibilidades de sobrevivência e/ou impactos ecológicas, e possivelmente a magnitude dos impactos” (Simberloff & Von Holle, 1999). Muitos estudos corroboram ambas as hipóteses supracitadas (e.g. Levine & D’Antonio, 1999), ou seja, este é mais um assunto fervoroso e que merece ser mais explorado na ecologia. Por este tipo de discussão, geração de idéias testáveis, e por vários outros motivos o livro de Elton (1958) é um marco na ecologia de espécies invasoras e, não por acaso, possui moluscos em sua capa e discussões. O livro de Elton  é amplamente reconhecido como marco na ecologia de invasões biológicas, com mais citações do que qualquer outra publicação única sobre o tema na literatura (>1.500 citações internacionais e continua a ser citado mais de 100 vezes por ano em média nos últimos 10 anos; Richardson, 2011). Em termos de estudos teóricos e tomadas de ação ou prevenções contra espécies não nativas e potenciais invasões os países em desenvolvimento, em especial na América do Sul, ainda estão muito inertes e precisam expandir ou modificar sua postura rapidamente (Vitule, 2009; Nuñez & Pauchard, 2010; Vázquez & Aragon, 2002; Lövei et al., 2012; Nuñez et al., 2012 in press; Speziale et al., 2012; Vitule et al., 2012 in press). Assim, notoriamente para países em desenvolvimento e megadiversos, como o Brasil, o mais prudente seria a precauções contra a introdução de novas espécies não nativas e a tomada de ações, estudos e manejo rápidos e eficientes no caso de invasões já relatadas. Infelizmente, o que temos visto e relatado, notoriamente por parte dos políticos e governantes no Brasil são ações rápidas e eficazes no sentido contrário (Magalhães et al. 2011; Vitule et al. 2012 b).

Literatura usada:
Eisenhauer N, Scheu S, & Jousset A (2012) Bacterial diversity stabilizes community productivity. PloS one, 7 (3) PMID: 22470577
Elton, C. S. (1958) The ecology of invasions by animals and plants. London: Methuen.
Levine, J. M., & D’Antonio, C. M. (1999) Elton Revisited: A review of evidence linking diversity and invasibility. Oikos, 87, 15-26.
Lockwood, J. L., Hoopes, M. F., & Marchetti, M. P. (2007) Invasion Ecology. Malden: Blackwell Publishing.
Magalhães, J. L. B., Casatti, L., & Vitule, J. R. S. (2011) Alterações no Código Florestal Brasileiro Favorecerão Espécies Não-nativas de Peixes de Água Doce. Natureza & Conservação, 9, 121-124.
Richardson, D. M. (2011) Fifty Years of Invasion Ecology: The Legacy of Charles Elton. Oxford: Wiley- Blackwell.
Ricciardi, A. (2005) Facilitation and synergistic interactions between introduced aquatic species. In H. A. Mooney, R. N. Mack, J. A. McNeely, L. E. Neville, P. J. Schei & J. K. Waage, (Eds.). Invasive alien species a new synthesis. Washington: Island Press.
Simberloff, D. (2006) Invasional meltdown 6 years later: Important phenomenon, unfortunate metaphor, or both? Ecology Letters, 9, 912-919.
Simberloff, D., & Von Holle, B. (1999) Positive interactions of nonindigenous species: Invasional meltdown? Biological Invasions, 1, 21-32.
Simberloff, D., & Rejmánek, M. (2011) Encyclopedia of Biological Invasions. California: University of California Press.
Speziale, K. L., Lambertucci, S. A., Carrete, M., & Tella, J. L. (2012) Dealing with non-native species: what makes the difference in South America? Biological Invasions, Online First
Vázquez, D. P., & Aragón, R. (2002) Introduction to special issue on biological invasions in southern South America. Biological Invasions, 4, 1–5.
Vitule J. R. S. (2009) Introdução de peixes em ecossistemas continentais brasileiros: revisão, comentários e sugestões de ações contra o inimigo quase invisível. Neotropical Biology and Conservation, 4, 111-122.
Vitule, J. R. S., Skóra, F., & Abilhoa, V. (2012a) Homogenization of freshwater fish faunas after the elimination of a natural barrier by a dam in Neotropics. Diversity and Distributions, 18: 111–120.
Vitule, J. R. S., Lima Junior, D. P., Pelicice, F. M., Orsi, M., & Agostinho, A. A. (2012b). Preserve Brazil's aquatic biodiversity. Nature, 485, 309-309.
Vitule, J. R. V., Freire, C. A., Vazquez, D. P., Nuñez, M. A., & Simberloff, D. (2012) Revisiting the potential conservation value of non-native species. Conservation Biology, in press.
Leia mais em:

http://stopstocking.cowyafs.org/
http://stopstocking.cowyafs.org/?p=390 
http://www.institutohorus.org.br/index.php?modulo=inf_textos_leitor_peixes
http://www.oeco.com.br/salada-verde/25845-projeto-de-lei-quer-introduzir-especies-exoticas-em-represas
http://ecoratorio.blogspot.co.uk/

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