segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Consciência x Ação: Conexão Caramujo – para que viemos?

 Por Marta Luciane Fischer e Letícia Borba Caires



O caramujo africano Achatina fulica Bowdich (1822) é o molusco terrestre mais conhecido do planeta. A sua trajetória já deixou marcas nos quatro cantos do mundo despertando diferentes sensações: esperança, medo, curiosidade, expectativa, apreensão, indignação, entre tantas outras. Inicialmente a possibilidade de fornecer às populações carentes uma alternativa barata de alimentação saudável, além de uma fonte de renda, moveu pessoas idealistas a disseminarem a “ideia” e os animais para diferentes locais. A possibilidade parecia tão real e a necessidade de sanar um problema social, tão emergencial, que não foi refletido os problemas que poderiam advir caso uma espécie exótica passasse a viver em vida livre e a competir com as espécies nativas. Em um segundo momento, alguns homens menos idealistas e mais materialistas viram nessa “ideia” a possibilidade de obtenção lucros. Substituir o elitizado escargot dos pratos refinados europeus por uma alternativa mais “popular” e barata poderia levar a culinária refinada para outras mesas. O caramujo africano tinha todas as muitas vantagens em comparação com o Helix aspersa, além do maior tamanho, maior taxa reprodutiva, maior resistência, menor tempo de desenvolvimento, porém sem ter o mesmo sabor, mas isso era irrelevante. A “ideia” se disseminou e por incrível que pareça depois de experiências e relatos de insucesso e descontrole o ciclo continua e, neste exato momento, deve estar iniciando em algum ponto do planeta.  Os pontos inicialmente irrelevantes, demonstraram-se fatais em todos os locais onde o molusco foi introduzido: não apreciação do sabor da carne, falta de mercado, negligencia na criação, abandono dos animais, descaso das autoridades mesmo diante de relatos mundialmente conhecidos, apreensão da população pelos dúbios problemas de saúde, apreensão dos agricultores pelo eminente dando às plantações, apreensão dos ecólogos para o possível irreparável dano ambiental. 


Então, um século se passou desde que uma catástrofe e uma série de atitudes impulsivas e irresponsáveis foram tomadas nas ilhas do Pacífico, em especial no Havaí. Muitos artigos, livros, informativos e reportagens foram produzidos e a sociedade se dividiu entre aqueles que temem o animal como um ser altamente nocivo e usam de todos os argumentos para combatê-lo o mais rápido possível, antes que qualquer possibilidade de controle seja esgotada ou, ao menos, medidas menos cruéis de abate sejam pensadas e aqueles - que apesar de verem diante dos seus olhos toneladas de animais serem retiradas de pequenas áreas – acreditam que o risco seja apenas delírio de ecologistas desesperados e que naturalmente essas populações irão se equilibrar. O tema é polêmico sim, por isso depois de 10 anos trabalhando com essa espécie decidi criar um canal de comunicação para reunir as informações disponíveis se promover o debate entre diferentes visões a respeito desse problema. Esse projeto faz parte do PIBIT CNPq/PUCPR e tem como co-autora a administradora e acadêmica de Biologia Letícia Borba Caires. A intenção é criar um canal de comunicação com diferentes públicos, por isso iremos explorar diferentes linguagens. Pretendemos nos comunicar com o setor público, o qual entendemos ser o agente gestor de todas essas questões apresentando as novas descobertas e os pontos de vista dos profissionais que estão trabalhando com esta e outras espécies invasoras. Pretendemos nos comunicar com os acadêmicos, pesquisadores e alunos que estão interessados em fazer parte dessa equipe multidisciplinar que visa uma qualidade ambiental como direito fundamental para todos nesse planeta. Pretendemos nos comunicar com os professores e alunos dos ensinos médio e fundamental, pois entendemos que o desenvolvimento da cidadania é construído e deve começar na base. E, por fim, pretendemos nos comunicar com a sociedade, com os cidadãos que são os principais atores de toda e qualquer ação realizada no ambiente. Todos os “problemas” que temos hoje com as temidas “pragas urbanas” é em grande parte decorrente da contribuição de cada cidadão. Precisamos compreender que não vivemos sozinhos, estamos em uma comunidade e obviamente aquilo que fizermos em nossas casas vai refletir na casa de todos. Precisamos trabalhar juntos, pensando no bem comum, sempre! E principalmente entender que não buscamos a solução para o “problema” do caramujo africano, mas sim queremos o bem-viver de todos os seres vivos do planeta. E se hoje o caramujo é um problema para o homem, ele representa apenas um termômetro de que algo não está certo. E mesmo que venhamos resolver o problema do caramujo, se continuarmos a tomar as mesmas atitudes que temos, outros problemas virão e serão as aranhas, os mosquitos, os escorpiões, as capivaras... e daí? Vamos apenas eliminando um por um como em um jogo de vídeo game? Precisamos refletir nossas atitudes, mudar nossos paradigmas éticos e morais e visar o bem-comum. Esperamos que vocês apreciem nossa iniciativa e nos ajudem a construir este canal de CONEXÃO, CONSCIÊNCIA E AÇÃO!

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